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O PIB e a economia do bem estar

2020.7.5 Vítor Ribeiro, CFA

Ao falarmos sobre as diferenças entre mercados financeiros e economia ressalta desde logo um rácio tão apreciado ao longo de décadas: Market Cap to GDP - a capitalização de mercado em percentagem do PIB.

Este rácio, conhecido e popularizado como Buffett Indicator, é um indicador de longo prazo para o mercado acionista e é visto como uma forma de perceber como estão as avaliações de mercado num dado momento face aos fundamentais económicos. Assim, deveríamos esperar um crescimento similar no mercado acionista (numa perspetiva de retorno total, preço e dividendos) e no PIB real (ajustado à inflação).

O gráfico a seguir, utilizando a informação disponível no website Long Term Trends, representa uma das formas possíveis do indicador, ou seja, o índice americado Wilshire 5000 face ao PIB americano.

 

 

Como se pode ver, há uma realidade diferente visível nos últimos anos.

Naturalmente que a baixa (mas estável) taxa de inflação e as baixas (ou negativas) rentabilidades dos instrumentos de dívida como obrigações ou depósitos, são fatores apelativos para o investimento em ações, apesar do risco de sobrevalorização evidente.

Tal como referia Damodaran, os mercados são autênticas máquinas de previsão, cheias de ruído e erros, é certo, mas que nos fornecem o valor atual de um serviço ou de um produto, de um setor ou de uma região num dado momento.

Acrescentaria que além de máquinas de previsão, os mercados financeiros são máquinas de inteligência emocional. Dissociar a evolução de um índice, ou de um título, de sentimentos como o medo ou a confiança, da capacidade de motivação ou de influência, é não perceber a essência do comportamento humano.

Também é comum ouvirmos que, de uma forma geral, os mercados parecem estar mais vezes certos do que errados, apesar das bolhas e das depressões. Revelam um temperamento muito condicionado pelo medo e pela emoção, pela felicidade e pela sorte ou azar, pelo comportamento irracional e impulsivo. Mas entre curvas e picos, altos e baixos, em V ou em W, vão deixando pistas seguras sobre o futuro.

Há por isso cada vez mais críticas na utilização de certas medidas estatísticas e económicas como o PIB, por já não estarem a conseguir captar tão bem o verdadeiro estado da economia.

O PIB ignora por exemplo o lazer, a felicidade, o trabalho doméstico, a flexibilidade do mercado de trabalho. Ignora a distribuição da riqueza, numa altura em que cresce a desigualdade. Ignora o ambiente, a sustentabilidade, a inovação, a educação. Ignora a produção de dados pessoais. Ignora a desintermediação via digital, ignora a economia partilhada ou até a economia de produção de bens digitais a partir de casa como a produção de conteúdos para blogs, vídeos, os serviços médicos ou software open source. Muitas destas atividades até são atividades de preço zero. Por isso, teremos de concluir que a macroeconomia ainda não terá conseguido sistematizar a economia do futuro.

No fundo, medimos a economia com conceitos e métodos dos anos 40 do século passado. Com tanta dívida, baixa produtividade e alta desigualdade, a economia e sociedade evoluíram e tornaram-se demasiado complexas para serem resumidas numa medida como o PIB. Como bem explicado neste trabalho sobre o futuro do PIB elaborado pelo Credit Suisse, uma das conclusões fortes é que poucos investidores tomam decisões de investimento com base no PIB.

Neste infográfico disponibilizado pelo conselho europeu, baseado num trabalho da OCDE, relaciona-se de forma clara o crescimento económico com o bem estar individual.

O PIB, e outros indicadores económicos como a inflação, a taxa de desemprego, ou a dívida em percentagem do PIB, são absolutamente essenciais num processo de análise rigorosa e fazem parte da matriz de informação a produzir, recolher e analisar. Mas outras métricas e indicadores devem ser considerados para complementar a análise e o processo de tomada de decisão.

Este infográfico identifica a economia do bem estar como uma economia que reduz a desigualdade, promove a proteção social, investe em educação e formação, em saúde e medidas preventivas e um maior equilibrio entre trabalho e lazer.

 

O número de utilizadores, a escalabilidade, a felicidade, a sustentabilidade e responsabilidade social, são fatores preponderantes nos novos negócios e nas boas histórias de investimento. Serão o futuro? Nem todas. Cabe a cada investidor fazer o trabalho de casa e decidir o melhor caminho a trilhar para atingir os seus objetivos. A economia, com ou sem PIB, continuará a fazer o seu caminho paralelo na procura do bem-estar individual e enquanto sociedade.

É ainda essencial olhar para o sistema geopolítico e emocional das economias analisadas e a forma como os negócios são estruturados.

Em resumo, o futuro da economia parece estar:

  • Em empresas com pouca dívida e com disponibilidade para a inovação e criatividade;
  • Com visão global e escalável;
  • Que respondam a necessidades ou que criem essas necessidades;
  • Que se adaptem às pessoas e sejam flexíveis no seu modelo de negócio;
  • Que tenham um negócio responsável e sustentável;
  • Com capital humano de elevada qualidade e claras preocupações com o seu bem-estar;
  • Com base em países abertos e politicamente estáveis, boas infraestruturas sociais, de educação, justiça, segurança, saúde e um sistema fiscal simples, transparente e eficaz.

 

A fragilidade da democracia e da civilização também é nestes cenários que se torna mais evidente. E hoje, mais do que nunca, estamos preparados para olharmos para a economia também numa perspetiva de bem estar e responsabilidade e não apenas em termos ideológicos e produtivos.

Vítor Ribeiro, CFA
Vítor Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® Charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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