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Bear Market: quando começamos a duvidar

2022.8.10 Vítor Ribeiro, CFA

O ambiente de mercado é negativo. Sente-se o pessimismo e a desconfiança. Uma espécie de negação da realidade. Podemos ver aqui um sinal positivo para o futuro?

Em alturas de crise sentimos que estivemos a investir para nada. Adiamos consumo, privamo-nos de mudar de casa, de comprar um carro, de umas férias especiais ou de jantares com amigos, para agora ter a nossa carteira a cair e até com um valor inferior ao inicialmente investido.

Será que vale a pena aguentar? Será que cometi algum erro? Será que vale a pena não viver o presente a pensar num futuro incerto?

Estas lamentações são também associadas à seleção dos ativos investidos. É comum, por exemplo, concluirmos que devíamos ter investido no Ativo A em vez do Ativo B. Uma autopunição, confirmada pelos resultados e que deveríamos ter antecipado pois, supostamente, estávamos no controlo e a seguir atentamente a evolução das notícias e dos gráficos ou confiámos em alguém para estar atento por nós.

No fundo começamos a duvidar. A paciência desaparece. Procuramos sofregamente alternativas que, como os nossos amigos e os gurus de mercado nos têm dito, funcionaram muito bem no passado. Tentamos fazer alguma coisa. Eles, que não conhecem a nossa situação específica, recomendam vender um ativo e comprar outro ou então a sábia resignação “Ah, mas agora estás com perdas, por isso não há nada a fazer, tens de aguentar”. E tu confirmas: “não quero vender sem recuperar o meu investimento.” 

Estas conversas são mais comuns do que imaginamos. E é nestes momentos que se revelam os principais erros, desvios, preconceitos e vieses comportamentais, nomeadamente erros cognitivos e emocionais, como a visão em retrospetiva, a ilusão do controlo, ou a aversão ao arrependimento.

É desconfortável admitir que nos enganamos (é um mecanismo de defesa do ego). A memória não é perfeita. Preenchemos os lapsos de memória com aquilo que preferimos acreditar e podemos ver eventos passados como previsíveis quando na realidade não o eram.

Por outro lado, temos uma tendência para acreditar que podemos ter o controlo ou influenciar resultados quando, de facto, não podemos. Repare-se na situação dos números de uma lotaria. Quando possível, as pessoas estão dispostas a pagar um preço mais alto por bilhete para selecionarem os seus próprios números do que as pessoas que jogam em números atribuídos aleatoriamente. Porquê? Porque acreditam que “têm o controlo”.

Há também a tendência para investimentos com os quais estamos familiarizados ou então "seguir a manada". Tomar decisões é difícil e temos receio do arrependimento. 

Respire fundo. Não decida com o coração e com a sorte. Um dos principais atributos de Warren Buffet, o exemplo máximo do Investidor Inteligente, é a capacidade de tomar decisões sem receios de arrependimento e com base na sua análise, no seu processo e nos seus objetivos de longo prazo, olhando para o futuro.

 

O que é um Bear Market?

Os mercados são pródigos em citações e frases memoráveis e há uma que é imperdível num bear market: “the only thing that goes up in a crisis is correlation”.

Como vimos neste artigo sobre o portefólio 60/40, é mesmo isso que está a acontecer. As classes de ativo tradicionais não trouxeram o efeito de compensação através da diversificação e a dada altura não parece haver qualquer ativo de refúgio.

“Então é mesmo para duvidar e deitar a toalha ao chão?”

Um bear market, de acordo com a definição na investopedia, é quando “um mercado sofre quedas prolongadas nos preços. Normalmente descreve uma condição na qual os preços dos ativos caem 20% ou mais em relação aos máximos recentes, no meio de um pessimismo generalizado e sentimento negativo dos investidores”.

Há uns tempos, um treinador de ténis disse que um jogador tem 3 adversários: a rede, a linha de fundo e o adversário propriamente dito. No fundo, queria ele dizer que nós somos o nosso principal adversário. E quanto menos erros cometermos, mais probabilidade temos de ganhar. 

Os analistas e comentadores aparecem em grande destaque nestas alturas de crise. Vemos muitas linhas escritas e muitos especialistas explicarem o que acontece em cada bear market. Calculam as médias de quedas, qual a profundidade, ou qual a rentabilidade média após uma queda superior a 20%. O tempo médio de recuperação, os setores mais e menos penalizados, 

E eu pergunto para quê? Mero exercício académico? Precisamos desta informação para tomar decisões? Não, mas sentimo-nos confortáveis em saber o que aconteceu, certo?

Mas a verdade é que em cada crise o ponto de partida é diferente, o contexto muda, os cenários macro e geopolíticos evoluem e as avaliações não são as mesmas. Isto para não falar da nossa situação pessoal, que também é diferente e única.

Estas análises do tipo “o que aconteceu nos 10 bear markets” não significam nada para o bear market atual e para a tomada de decisão. Lembre-se que antes da grande crise financeira de 2008-2009 não tinha havido a grande crise financeira. Antes dos imóveis desvalorizarem acentuadamente os imóveis nunca tinham desvalorizado desta forma. Antes de uma grande empresa falir era impossível uma grande empresa falir. As surpresas estão sempre a acontecer porquanto nós não conhecemos o futuro.

 

Em vez destas análises, privilegie a sua situação individual, o seu plano de investimento e defina expectativas ou caminhos possíveis para o futuro. Invista com margem de segurança. Não cometa os mesmos erros básicos de investimento que os outros cometem com frequência. 

Recentemente, António Horta Osório, numa entrevista, referiu que os tempos que se aproximam vão requerer mais poupança por parte das pessoas, aconselhando as famílias a apertarem o cinto e as empresas a terem prudência. Não poderia concordar mais com estas recomendações. É nesta altura de incertezas e dificuldades que devemos estar mais cientes da nossa responsabilidade e atentos ao futuro. Aumentar a poupança significa consumir menos agora, mas também significa consumir mais no futuro. Significa também investir a um preço possivelmente melhor agora e abaixo do valor esperado no futuro. Significa ainda compensar o desvio que a carteira de investimento abriu durante o bear market. Sim, é verdade. Não controlamos o mercado, mas conseguimos controlar o nosso comportamento. 

Por isso, estando a carteira de acordo com os nossos objetivos, tolerância ao risco, preferências e restrições, é a capacidade de poupança, o otimismo e o tempo que nos vai levar de volta ao valor projetado da carteira. Não duvide e siga o plano definido.

Vítor Ribeiro, CFA
Vítor Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® Charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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