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Processo de normalização de Criptomoedas em curso - Moeda ou Título?

2021.1.10 Vítor Ribeiro, CFA

Por estes dias a vida corre de forma deslumbrante para as cryptocurrencies, nomeadamente a Bitcoin, que tem batido sucessivos máximos.

Conhecidas por várias designações, como cryptocurrencies ou cryptoassets, estes instrumentos digitais parecem beneficiar de todo o ambiente de taxas de juro reais negativas, digitalização e da inundação de liquidez sem precedentes que corre no sistema financeiro. Isto e uma grande dose de fé, esperança, confiança, inovação, tecnologia e especulação.

  1. Uma alternativa ao ouro ou moeda de pleno direito?
  2. Um ativo com valor intrínseco ou uma pura manifestação de fé?
  3. Uma opção de compra sobre o futuro ou um casino virtual?

 

Vamos por partes.

Há quem defenda que as cripto estão a emergir, não como moeda, mas como um título, um ativo alternativo, como uma commodity, e ainda como uma classe de ativos. Neste último caso, uma classe de ativos digital que pode agregar não só, meios de pagamento, mas também dados.

Na defesa desta visão, há vários argumentos:

  • Já existe um grupo significativo de criptos no mercado com características semelhantes;
  • São vistas como alternativa face a cenários de inflação/deflação;
  • Ativos de refúgio ou reserva de valor;
  • Uma fonte alternativa de retorno face aos ativos tradicionais;
  • Diversificação de um portefólio;
  • Especulação.

Há ainda os fatores intrínsecos à própria estrutura das criptos onde se incluem a confidencialidade, a descentralização e a própria tecnologia (blockchain).

Para contextualizar recorri à ajuda da Investopedia para algumas definições.

Classe de ativo:

An asset class is a grouping of investments that exhibit similar characteristics and are subject to the same laws and regulations. Asset classes are made up of instruments which often behave similarly to one another in the marketplace. 

Para ativo, a definição é:

An asset is a resource with economic value that an individual, corporation, or country owns or controls with the expectation that it will provide a future benefit. Assets are reported on a company's balance sheet and are bought or created to increase a firm's value or benefit the firm's operations. An asset can be thought of as something that, in the future, can generate cash flow, reduce expenses, or improve sales, regardless of whether it's manufacturing equipment or a patent.

Esta definição de ativo ajuda a explicar algumas das afirmações que por aí circulam, como aqui, de que a bitcoin é, atualmente, um dos ativos mais valiosos do mundo com uma capitalização de mercado próxima de empresas como a Tesla ou Alibaba.

 

Capitalização de mercado

Neste artigo do FT, Jemina Kelly destaca a impossibilidade de calcular a capitalização de mercado da bitcoin da mesma forma que se calcula a de uma empresa.

De acordo com a coinbase, há 19 milhões de moedas em circulação pelo que bastaria multiplicar pela cotação atual para obtermos o tal valor de mercado da bitcoin.

Entre as razões apresentadas por Jemina destaco o facto de a bitcoin não ser uma empresa ou até um ativo. Cá está, a perceção do que é a bitcoin não é unânime nem tão pouco pacífica. Afirma ainda que a circulação de bitcoins, e a sua liquidez no mercado, é muito baixa e que cerca de 3% controlam 95% da oferta de moeda. Estas características tornam as cryptocurrencies muito voláteis, totalmente imprevisíveis e uma demonstração de fé.

 

Cryptocurrencies como moeda digital e uma commodity

E no caso de commodity?

Mas uma vez, na Investopedia:

A commodity is a basic good used in commerce that is interchangeable with other goods of the same type. Commodities are most often used as inputs in the production of other goods or services. The quality of a given commodity may differ slightly, but it is essentially uniform across producers.

Assim o determinou um juiz americano em 2017, tal como detalhado neste artigo da CNBC, onde é sustentado que as moedas virtuais como a bitcoin podem ser reguladas como commodities. A comparação com o ouro não é de agora e tem como fundamento também esta ideia.

Em 2009, a bitcoin, como maior exemplo desta indústria, surgia como uma moeda virtual, um sistema alternativo de dinheiro digital peer-to-peer.

Uma moeda, na sua definição fiduciária, implica estabilidade, segurança, aceitabilidade, confiança, circulação controlada por um governo através de um banco central. No entanto, como se tem vindo a verificar, estes instrumentos parecem-se mais como uma forma de especular do que propriamente como um sistema alternativo de pagamentos. Veja-se a definição de Fiat Currency na Investopedia:

Fiat money is government-issued currency that is not backed by a physical commodity, such as gold or silver, but rather by the government that issued it. The value of fiat money is derived from the relationship between supply and demand and the stability of the issuing government, rather than the worth of a commodity backing it as is the case for commodity money. Most modern paper currencies are fiat currencies, including the U.S. dollar, the euro, and other major global currencies.

Parece difícil considerar que as cripto são, neste momento, moedas.

Mas vamos a mais um exercício. Decidi olhar para a performance do índice S&P500 em bitcoin, como se fosse uma moeda.

John Authers, no regresso ao seu hedge fund imaginário Hindsight Capital LLC, escreve-nos sobre a análise de índices em diferentes moedas, destacando que em 2020 a melhor moeda foi a coroa sueca (SEK) e a pior o real brasileiro (BRL).

Sendo um índice americano, o S&P500 valorizou-se 15.4% em USD, 49.1% em BRL e 1.24% em SEK.

Admitindo que alguém é nativo em bitcoins, se comprasse o S&P500 no início de 2020 mantendo o investimento até ao final do ano, teria uma perda de 68%.

 
 

Assim, ao olhar para as valorizações como as da bitcoin podemos ver o outro lado: a desvalorização das moedas fiduciárias. Podemos falar até da ilusão monetária ou da teoria dívida-deflação, desenvolvida essencialmente pelo economista americano Irving Fisher.

 

Como classificar estes instrumentos digitais? Títulos? Uma religião?

Ben Carlson, neste artigo, classifica a bitcoin como como uma opção sobre a natureza humana e associa-a, referindo-se à newsletter de Joe Weisenthal, como a primeira religião do século XXI.

A natureza humana revela que tomamos decisões baseadas no medo, na ganância, no pânico e na irracionalidade. E também que não sabemos até quando, cada uma destes sentimentos, podem perdurar.

A dificuldade em classificar estes instrumentos e a sua crescente importância no panorama financeiro mundial, parecem ser argumentos suficientes para o processo de regulação em curso. Este artigo da Bloomberg detalha o recente processo da SEC, autoridade reguladora americana, contra a Ripple Labs Inc (XRP), como um ponto de viragem importante neste processo. A autoridade acusa a empresa de enganar investidores em XRP, a terceira maior criptomoeda do mundo, com a venda de mais de US $ 1B em tokens virtuais sem fazer o respetivo registo da oferta de títulos.

O esforço parece ser o de trazer estes instrumentos para o espaço mediático e para o enquadramento regulatório.

Enquanto isso acontece, são os próprios bancos centrais a anunciarem o lançamento de moedas virtuais. Os bancos centrais sabem que este processo é irreversível e a forma de garantirem a sua própria importância no processo económico e de estabilidade financeira. E até do ponto de vista ambiental e da segurança pode vir a ser fundamental.

Sei que as várias cryptocurrencies usam diferentes tecnologias e têm objetivos distintos. Mas é certo que este processo é apenas o início e poderá também revolucionar o próprio quadro regulatório.

Mais uma vez é a regulação a ir atrás da inovação. Só que neste caso, o processo pode ter de ser supranacional.

 

Então em que ficamos?

Uma criptomoeda é uma commodity virtual, criada de uma forma descentralizada, para transações e pagamentos peer-to-peer, num ambiente económico alternativo e inovador para o sistema financeiro mundial. Parece bem?

Tendo em consideração a privacidade, o tratamento de dados pessoais e o valor que a informação tem atualmente, já há quem defenda que os dados pessoais possam ser transacionados como uma commodity. E neste caso, tal como os nossos dados, também as criptos e a sua tecnologia poderiam conferir esta capacidade ao nível da segurança e da sua valorização no futuro, como um token.

Raymond Aron:

“Acredito que tudo está sempre em questão; que tudo está sempre por salvar; que nada está definitivamente adquirido; e que nunca há repouso na Terra para os homens de boa-vontade”.

O futuro é desconhecido. Para já parece ser apenas um jogo de sorte ou azar, irracional, um carrossel no parque de diversões virtual. No futuro, poderá ser mais um passo na globalização, numa nova economia e na desnacionalização da sociedade.

 

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Vítor Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® Charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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