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Ideias para uma carteira com menos volatilidade

2022.4.4 Vítor Ribeiro, CFA

Volatilidade não é risco.

 

Concorda com esta frase?

A volatilidade é, sem dúvida, um dos principais fatores associados à tomada de decisão no âmbito de uma carteira de investimento. Sentimos as variações do valor do portefólio, principalmente as variações negativas, de uma forma muito intensa e desconfortável. Por isso, a pergunta que queremos ver respondida é: como conseguir um portefólio com menos volatilidade?

Deixar o dinheiro à ordem, investir em depósitos a prazo ou estruturados, certificados de aforro ou do tesouro, seguros de capitalização, são alguns dos exemplos mais associados ao controlo da volatilidade e a investidores com baixa tolerância ao risco. Contudo, esta aparente garantia de estabilidade vem com um custo cada vez mais elevado. Com os níveis recentes e esperados de inflação e as taxas de juro associadas a este tipo de aplicações significa que estamos, na prática, a investir para perder dinheiro. 

Perante este cenário muitos investidores e aforradores decidiram virar-se para alternativas, que nem sempre são indicadas para investidores com baixa tolerância ao risco, mas são muitas vezes vistas como tendo baixa volatilidade. Entre elas está a compra de imobiliário direto. O racional, lá está, continua a ser o mesmo: “segurar” (emocionalmente) o capital investido e obter uma rentabilidade que, neste caso, se espera superior às aplicações tradicionais. 

Esta análise não pretende ser uma fonte de argumentos para investir num ou noutro ativo, mas sim, um alerta para a forma como tomamos decisões de investimento, tendo em consideração a volatilidade dos ativos. A verdade é que preferimos o investimento não diversificado num imóvel (a maior parte dos investidores não tem capacidade para adquirir uma carteira de imóveis que lhe permita a diversificação do risco) do que o investimento diversificado, eficiente e barato num ETF de ações mundiais.

 

Então, por que razão temos esta preferência?

A ausência de cotação diária de um imóvel, por exemplo, talvez seja uma das razões. Para o investidor, que trocou dinheiro parado no banco por um imóvel e até utilizou alavancagem (financiamento bancário) para parte da aquisição (relembro que se trata de um investidor com baixa tolerância ao risco), o dinheiro está ali naquele ativo físico/real cujo valor de mercado é muitas vezes confundido com o valor investido, esperando a sua valorização e até a obtenção de rendimento via arrendamento. Nos ativos financeiros já não pensamos assim. Comprar um ETF de ações que replica o MSCI World Index, que significa investir em cerca de 1500 empresas do mundo desenvolvido, sabemos a cada instante o seu valor de mercado, que poderá ser bem superior ou inferior ao valor investido (lá está a volatilidade visível), em que empresas está investido, em que regiões, qual o rating ESG e com possibilidade de obter liquidez praticamente imediata, dependendo da hora a que tomamos a decisão. Neste caso, não temos paciência, não olhamos para o futuro e para as razões que nos levaram a investir.

O investimento num imóvel ou numa carteira mundial de ações são, naturalmente, investimentos diferentes. Podem ser complementares e desempenhar papeis importantes numa carteira de investimento, mas perante o cenário da volatilidade, parece que preferimos prescindir da transparência em relação ao seu valor de mercado.

A verdade é que se ambos foram adquiridos para o longo prazo, o impacto das variações diárias não deveria ser uma preocupação. Mas sabemos que é. Este artigo é sobre volatilidade, não sobre uma alternativa de investimento ser melhor do que a outra. A volatilidade é informação e está do nosso lado, para nos relembrar da tolerância ao risco.

A solução não deve ser a de evitarmos saber o seu valor atual. Pelo contrário. Faz sentido termos acesso total a essa informação, tanto num caso como noutro. Mas não deve ser esta informação o gatilho para tomar a decisão de investir ou desinvestir.

Não há problema nenhum em preferirmos investir em bens reais ao invés de ativos financeiros. Temos apenas de ter consciência da importância da informação e dos benefícios e constrangimentos de ambos para o cenário que definimos no início: uma alternativa com baixa volatilidade às tradicionais aplicações financeiras para investidores com baixa tolerância ao risco.

 

A importância da alocação de ativos

Uma correta alocação de ativos significa ter uma carteira diversificada por diferentes classes de ativos que nos permite passar pelos diferentes ciclos económicos e investir tendo em consideração o nosso plano, ou seja, alinhado com objetivos, tolerância ao risco, preferências e restrições. 

Se a carteira estiver bem diversificada teremos aí a resposta também para a inflação:

  • alocação a ações, em diferentes setores ou regiões
  • imobiliário e outros ativos reais
  • obrigações de taxa variável ou indexada à inflação
  • commodities. 

O mesmo acontece para a volatilidade. Olhar para a queda máxima potencial do portefólio ajuda a otimizar um portefólio que tenha como objetivo evitar essa queda. O rebalanceamento periódico da carteira, trazendo as classes de ativos para as suas alocações alvo é um mecanismo poderoso. 

 

Manter os níveis de poupança ou até reforçar

Diria que a poupança é um dos fatores de sucesso rumo à independência financeira, mas num cenário como o atual, torna-se ainda mais importante. A carteira agradece e o processo de rebalanceamento é feito de forma ainda mais eficiente.

Se somos investidores com baixa tolerância ao risco e com pouca vontade de volatilidade, temos de estar preparados para as baixas taxas de juro e por isso temos de poupar mais. Poupar mais, ou acima no normal, tem a vantagem de reduzir a necessidade de assumirmos risco.


 

Definir objetivos 

Se definirmos objetivos concretos podemos construir um portefólio especificamente para cada objetivo. Poupar e investir para o objetivo de comprar um carro daqui a 5 anos é diferente de poupar e investir para a reforma daqui a 20 anos. Podemos poupar e investir para ambos os objetivos e construir portefólios orientados para cada um. 

Esta orientação permite controlar o risco e a volatilidade do património. Além disso, ficaremos mais imunes às variações diárias pois sabemos que estamos a poupar e a investir para um objetivo. Ficaremos mais focados no tempo e no onde vamos “esconder” (aplicar) a poupança, ou seja, nos ativos que vão ajudar a atingir os objetivos. 

 

O nosso portefólio é único

Este fator é essencial. Sofremos muita pressão externa para investir neste ou naquele ativo. Vamos sempre conhecer alguém que investiu bem e está com elevada rentabilidade, mas dificilmente conheceremos quem está a investir mal e a perder muito dinheiro. O ideal é investir naquilo que é o nosso plano, que é único e é o ajustado à nossa vida. É importante estarmos alinhados e focados com o nosso perfil de investimento, objetivos, a tolerância ao risco e preferências.

Às vezes, a melhor estratégia é aquela que conseguimos seguir ou reproduzir, não a estratégia perfeita e racional. Uma boa estratégia que podemos seguir é preferível a uma estratégia perfeita, mas que não podemos seguir.

As decisões não são fáceis. Mas temos de saber que a volatilidade diária em pouco ou nada deve alterar o nosso plano. É este o nosso seguro. Os seguros são uma forma de atenuar risco, passando-o para outra entidade, mas não elimina o risco. Ele continua a existir. No caso de uma carteira, os seguros que os investidores têm disponíveis são vários: a diversificação, a definição de objetivos, o investimento com base nesses objetivos definidos, a poupança sistemática, o otimismo e o fator tempo.

Não há respostas mágicas, mas há estratégias que ajudam a controlar e a mitigar a volatilidade e quase todas dependem de nós e não do próprio mercado.

Vítor Ribeiro, CFA
Vítor Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® Charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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