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Como acompanhar os seus investimentos

2021.11.29 Vítor Ribeiro, CFA

A frase “não tenho tempo para acompanhar os investimentos” encerra em si mesma um daqueles sofismas da vontade livre: será que precisa mesmo de ter tempo para acompanhar? O que significa acompanhar a carteira?

De facto, olhar para um monitor e ver os movimentos diários de ativos de uma carteira é muito vezes confundido com aquilo que designamos por acompanhamento da carteira ou feedback. É a terceira fase da nossa abordagem e filosofia de investimento, que inclui o planeamento e a execução. Na gestão de investimentos, acompanhar a carteira significa avaliar a performance dos ativos e da própria carteira, monitorizar os objetivos definidos, fazer o rebalanceamento da carteira e, se necessário, rever ou alterar a política de investimento.

Por um lado, com a crescente digitalização do processo de investimento, parece ser mais fácil acompanhar a carteira. Há plataformas para todos os gostos, que nos permite um acesso rápido e seguro a vários mercados e instrumentos e depois fazer o acompanhamento da evolução desses investimentos.

Por outro lado, essa facilidade proporciona decisões mais erráticas e até maior dispersão da carteira entre vários brokers ou sociedades de investimento, dificultando a gestão integrada da mesma.

A figura seguinte destaca algumas das principais plataformas de investimento e o seu enquadramento nos diferentes segmentos da indústria de gestão de ativos.

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É óbvio que mais informação e mais opções é melhor, mas isso não significa ficar refém dessa informação, que normalmente surge na forma de ruído ou vieses comportamentais. Daniel Kahneman, Oliver Sibony e Cass R. Sunstein, no seu mais recente livro, Noise, são perentórios a considerar a existência de 2 tipos de erros: o preconceito (ou enviesamento) e o ruído.

O ruído assume particular importância porque somos constantemente inundados de informação que perturba a nossa tomada de decisão e o foco naquilo que é importante.

Por isso, acompanhar a carteira não é o ato de analisar se o portefólio está a cair ou a subir, mas sim analisar se a carteira está ou não em linha com o nosso objetivo avaliando a sua performance no contexto do plano financeiro definido.

Essas plataformas, que simbolizam a flexibilidade e a facilidade de investir atualmente, são muito positivas para o desenvolvimento dos mercados financeiros e incluem ferramentas de enorme valor para os investidores. Desde logo, o valor seguro da liquidez. Haver liquidez diária dos investimentos não deve ser um sinal para transacionar, mas antes um seguro que os diferencia dos investimentos mais ilíquidos como o investimento em imobiliário direto.

Com a proliferação de plataformas de investimento e o surgimento de novos produtos financeiros, verifica-se cada vez mais a importância de termos uma visão integrada da carteira onde toda a informação possa ser agregada e analisada. Uma agregação que permita a análise de uma carteira por objetivos, por classes de ativos e até por broker ou banco e que possa incluir ativos não financeiros ou com menor liquidez como os ativos imobiliários, arte e outros investimentos alternativos.

Se a informação continuar dispersa será mais difícil tomar decisões corretas, perderemos mais tempo na análise e aumentaremos o risco de decidirmos por impulso, perante movimentos repentinos no mercado e com base no ruido e em vieses comportamentais.

 

Análise de performance

No acompanhamento da carteira deve também estar incluído um conjunto de medidas de performance. As mais comuns são: 

  • Retorno, que pode ser calculado em várias periodicidades. Desde o início do ano, a um ano ou anualizado. Uma das siglas mais conhecidas é o CAGR (Compound Annual Growth Rate ou taxa de rentabilidade anual efetiva), que é uma taxa de rentabilidade que permite compreender a taxa efetiva de um investimento desde o início;
  • Desvio padrão, que representa a variação dos retornos em relação à média, a volatilidade dos ativos ou da carteira como um todo;
  • Rácio de Sharpe, que é uma medida de rentabilidade ajustada ao risco desenvolvida por Willianm Sharpe. É muito utilizada, por exemplo, para podermos comparar a performance do portefólio ou ativo face ao respetivo benchmark ou portefólios similares. Um rácio de Sharpe mais alto é bom para a carteira, pois significa que estamos a remunerar melhor o risco incorrido;
  • Queda máxima, que pode ser em percentagem ou em valor e permite perceber a queda do portefólio desde o anterior máximo ou num determinado período de tempo. É uma medida que evidencia realismo e ajuda o investidor a tomar decisões;
  • Value-at-risk, uma medida de gestão de risco que permite quantificar o valor de perda potencial da carteira num determinado período de tempo, mediante uma determinada probabilidade.

 

Para sabermos se a carteira está ou não a ter um bom comportamento devemos considerar a sua comparação com carteiras similares. Normalmente utilizam-se benchmarks, que podem assumir a forma de índices ou até de ativos comparáveis com os da carteira como ETF ou fundos de investimento. A utilização de índices é a norma da indústria, como o MSCI World, o S&P500, o Stoxx600 ou o Barclays Bloomberg Global Aggregate Bond Index. Por exemplo, se tivermos uma carteira composta por fundos de investimento e ETF podemos utilizar uma carteira de índices como benchmark para avaliarmos a performance da carteira e dos ativos que a compõe.

Mas é cada vez mais comum a comparação com uma carteira real, que possa ser investida, para que se incluam na comparação os custos de gestão e transação. 

A par destes benchmarks, e dependendo do tipo de gestão de carteira que o investidor tem – advising (consultoria para investimento), gestão discricionária (mandato) ou do-it-yourself - podemos utilizar também os objetivos de retorno e risco da carteira no longo prazo como referências a comparar. Esta possibilidade permite ao investidor perceber os desvios face ao seu objetivo e distanciamento face ao comportamento diário do mercado. 

Em resumo, acompanhamento da carteira não é um processo de tomada de decisões com base nos movimentos diários dos ativos, mas sim a análise e monitorização da carteira com base no plano definido, na forma como o mesmo está a evoluir e nas expectativas que assumimos. Só assim poderemos tomar as melhores decisões no sentido de rebalancear a carteira ou até de trocar de gestor ou de instrumentos financeiros.

Decidir por memória e com base em atalhos mentais pode levar o investidor a transacionar mais vezes, a gerar mais custos e a baixar a performance potencial do investimento. Muitas vezes, ter tempo para acompanhar significa ter tempo para fazer alguma coisa quando na verdade, o que a carteira pede é que não se faça nada. Por isso, ter tempo para acompanhar pode significar ter tempo para verificar que não temos de fazer nada. 

Procure ver a carteira de forma integrada. Decida com base em métricas definidas. Não transacione por impulso. Alterar o plano de investimento porque o mercado flutuou é admitir que somos dominados por enviesamentos e pelo ruído e não pelos nossos objetivos e metas

Vítor Ribeiro, CFA
Vítor Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® Charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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